domingo, 16 de agosto de 2009

Médici e Nixon planejaram derrubar Allende e Fidel

O presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon (1913-1994) e o general de turno na ditadura brasileira, Emílio Garrastazu Médici (1905-1985) conspiraram juntos na Casa Branca em dezembro de 1971 pela derrubada do socialismo em Cuba e no Chile de Allende. O relato do encontro está num arquivo secreto da Casa Branca agora desclassificado. O comportamento de Garrastazu adapta-se perfeitamente ao qualificativo: capacho do imperialismo americano.


Por Bernardo Joffily

# médici

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A reunião ocorreu no Salão Oval da Casa Branca, às 10h de 9 de dezembro de 1971. Do lado brasileiro, só Médici estava presente, deixando o Itamaraty de fora. Sem falar inglês, precisou da ajuda do general Vernon Walters. Agente da CIA (em breve seria nomeado seu vice-diretor), Walters fora adido militar americano no Brasil durante o golpe de 1964, falava bem o português e transitava facilmente nos círculos da direita militar brasileira.

Médici, sabujo, bajulador e servil

O relato Top Secret da conversa está agora – em inglês – no site americano The National Security Archive. Segundo o arquivo, Nixon perguntou a Médici se o exército chileno seria capaz de derrubar Allende. Médici disse que "achava que sim" e deixou claro "que o Brasil estava trabalhando para este fim".

Na parte pública dessa visita de Garrastazu a Washington, ficou famosa uma frase de Nixon: “Para onde o Brasil se inclinar, a América do Sul se inclinará". Agora, a transcrição das atas do encontro reservado no Salão Oval da Casa Branca deixa explícito qual era o sentido verdadeiro do comentário.

Vistos quase quatro décadas mais tarde, os arquivos evidenciam o quanto mudou o Brasil e a América Latina. Naquela época, como fica claro na conversação, era uma reserva direta dos EUA, merecendo integralmente o rótulo de quintal do imperialismo americano.

Ainda hoje há no vizinho do Norte quem assim pense, colaborando com os golpistas hondurenhos ou planejando bases militares na Colômbia. Mas é difícil acreditar que haja espaço para uma repetição do comportamento sabujo, bajulador e servil exibido pelo general Emílio Garrastazu Médici conforme a transcrição. O relato torna-se ainda mais repugnante quando se recorda que dentro do Brasil vivia-se em plena escalada das torturas e assassinatos de opositores da ditadura.

Conspiração para derrubar Fidel

Conforme o documento, Nixon começa por esclarecer que os movimentos de seu governo em relação à União Soviética e à china "absolutamente não significam" que "também haverá mudança em nossa política para com Cuba". O relatório descreve:

"O presidente [Nixon] repetiu que não haveria mudança em nossa atitude para com Cuba enquanto Castro estivesse no comando e continuasse a tentar exportar a subversão. O preidente Médici disse que estava muito contente de ouvir isso e que isso coincidia exatamente com a posição brasileira."

Depois de discutirem maneiras de barrar o reingresso de Cuba na OEA (Organização dos Estados Americanos) – uma posição que veio abaixo em 2009 –, Nixon e Médici concordam em estabelecer "meios de comunicar-se diretamente, fora dos canais diplomáticos normais". O ditador brasileiro indicou como seu canal privado de contato o chanceler Gibson Barbosa. Em seguida, voltou ao tema cubano.

"O presidente Médici disse então que havia grande número de exilados cubanos nas Américas em geral; ele acreditava que existiam então um milhão de cubanos nos Estados Unidos. Esses homens alegavam que tinham forças e condições de derrubar o regime de Castro. Surge a pergunta: deveríamos ajudá-los ou não? O presidente [Nixon] ponderou a questão e disse achar que devíamos, desde que não os levássemos a fazer algo que não pudéssemos apoiar, e desde que a nossa mão não aparecesse. O presidente Médici concordou, dizendo que em nenhuma circunstância uma assistência que déssemos deveria ser visível. Caso houvesse alguma coisa em que o Brasil pudesse ajudar, seria de se apreciar que obtivéssemos essas opiniões através do canal privado."

O "trabalho" da ditadura brasileira no Chile

A conversa trata também das relações do Brasil com o Peru, a Bolívia, as ditaduras do Paraguai e da Argentina (esta, uma relação "de general para general", segundo Garrastazu). Entra em pauta então a questão do Chile, que vivia então a experiência do governo Salvador Allende, eleito no ano anterior por uma coligação socialista-comunista. Veja o trecho:

"O presidente [Nixon] perguntou então ao presidente Médici sua opinião sobre como se desenvolveria a situação no Chile. O presidente Médici disse que Allende seria derrubado pelas mesmíssimas razões pelas quais [o presidente brasileiro João] Goulart fora derrubado no Brasil. O presidente [Nixon] então operguntou se o presidente Médici pensava que as forças armadas chilenas seriam capazes de derrubar Allende. O presidente Médici respondeu que acreditava que eram, agregando que o Brasil estava intercambiando muitos oficiais com os chilenos, e deixou claro que o Brasil estava trabalhando para este fim. O presidente [Nixon] disse que era muito importante que o Brasil e os Estados Unidos trabalhassem muito intimamente nesse campo. Se os brasileiros sentirem que há algo que possamos fazer para sermos úteis nessa área, gostaríamos que o presidente Médici nos fizesse saber. Caso fosse preciso dinheiro, ou outra ajuda discreta, estaríamos dispostos a fornecê-la Isso deveria ser conduzido com a mais elevada reserva. Mas deveríamos tentar, evitar novos Allendes e Castros e tentar, onde possível, reverter essas tendências. O presidente Médici disse que estava contente em ver que as posições brasileiras e americanas eram tão próximas".

Médici ajudou a manipular eleição uruguaia

Outro documento secreto, relatando um encontro com o primeiro ministro britânico, Edward Heath, 11 dias mais tarde, mostra o entusiasmo de Nixon com o anticomunismo de Garrastazu. Veja esta transcrição do que ele disse, quando Heath perguntou-lhe sobre Cuba:

"O homem Castro é um radical. Radical demais até para Allende e os peruanos. Nossa posição é sustentada pelo Brasil, que é, afinal, a chave para o futuro. Os brasileiros ajudaram a manipular ["rig"] a eleição uruguaia. O Chile é outro caso – a esquerda está em dificuldades. Há forças que estão trabalhando e que nós não estamos desencorajando."


Na eleição presidencial uruguaia de novembro daquele ano, a Frente de Esquerda concorrera pela primeira vez. A coalizão de esquerda, hoje na presidência e favorita na eleição de outubro, obteve 18% dos votos na contagem oficial; ela era a principal preocupação tanto da Casa Branca como da ditadura brasileira.

Apelo a Lula: abra os arquivos da ditadura


Peter Kornbluh, diretor dos projetos sobre Chile e Brasil do The National Security Archive, considera que "os arquivos do Brasil são o elo perdido" e "um capítulo oculto da intervenção conjunta para derrubar o governo do Chile". Kornbluh fez um apelo para que o presidente Lula abra os arquivos dos militares. "A história completa da intervenção na América do Sul nos anos 1970 não pode ser contada sem acesso aos documentos brasileiros", afirmou.

Um relatório da CIA, citando fontes brasileiras, registra que Nixon e Médici concordaram em colaborar para contrarrestar a "tendência à expansão marxista/esquerdista" na América latina. Nixon prometeu "ajudar o Brasil quando e como fosse possível".

Esse relatório observa que o conteúdo do acordo secreto causou constrangimentos em alguns altos oficiais brasileiros. O general Vicente Dale Coutinho, comandante do 4º Exército, afirmou, segundo o texto da CIA, que "os EUA obviamente querem que o Brasil faça o 'trabalho sujo' na América do Sul".

O site The National Security Archive fornece numerosos outros originais mantidos em segredo pela Casa Branca, na medida em que vão sendo desclassificados e têm sua divulgação permitida. Alguns deles, inclusive sobre as relações com o Brasil, são liberados com tarjas pretas cobrindo os trechos que ainda são considerados "sensíveis".

Clique aqui para visitar.

Veja abaixo o fac simile do documento agiora desclassificado

Confecon Faça a sua parte!

Do blog do Eduardo Guimarães(Cidadania.com)

É imoral, inconstitucional e altamente danoso ao país o que vêm fazendo os meios de comunicação eletrônicos, com especial destaque para as tevês. Esses meios funcionam sob concessões públicas. Os concessionários não podem usá-las como se a eles pertencessem.

Vemos, por exemplo, a briga das tevês Globo e Record. As emissoras se engalfinharam em uma guerra pela audiência de baixo nível e quem paga o pato é o telespectador. É um desrespeito o que vêm fazendo as duas emissoras.

A Globo, para variar, usa sua concessão pública para atacar seus inimigos políticos. Manipula o debate, aumenta o volume da voz dos políticos seus aliados e diminui o dos inimigos destes. E, agora, em guerra pela audiência, faz uma reportagem desproporcional sobre uma notícia velha contra a emissora rival.

A Record, por sua vez, responde às denúncias velhas (que, no entanto, precisam ser respondidas, ainda que no fórum adequado) com acusações ainda mais velhas contra sua acusadora, por mais pertinentes que sejam.

Não é o que importa. O contexto em que essas informações afloram é totalmente inadequado. O tom é de briga de rua, de barraco. Agride o telespectador.

Claro que, como eu disse aqui recentemente, a briga entre as emissoras acaba beneficiando o público por revelar os podres de uma e da outra. Todavia, há que ter em mente que o denuncismo não é o objetivo das concessões públicas de rádio e tevê.

Há uma flagrante apropriação de espaços públicos como as ondas de rádio e tevê por grupos privados que atuam como se suas concessões desses espaços tivessem sido doações, que jamais foram ou poderiam ser num regime democrático.

Se as concessões que dão esse poder descomunal à Globo e à Record, entre outras, fossem fiscalizadas de alguma forma, certamente que a manipulação política facciosa e o uso com outros fins particulares delas teriam fim, pois tais concessões seriam revogadas.

A faixa de onda por onde transitam Globo e Record não é do governo ou da oposição, é de todos nós. Não tenho que engolir a propaganda política de um grupo específico, não tenho que engolir as conclusões deste ou daquele concessionário sem o devido contraponto, quando o assunto é política. E o mesmo vale para quem pensa o oposto do que penso.

Traduzindo, para evitar aquela acusação recorrente e de má fé de que esta seria pregação de uma tevê “chapa-branca”: não quero chapa branca nem preta nem azul nem cor-de-rosa; quero uma tevê sem chapa; quero ouvir o que dizem os governistas e os oposicionistas; quero confrontar argumentos sem que a tevê tente me induzir a conclusões num assunto em que não há certo ou errado definidos.

Não tenho que ver assuntos serem fabricados para favorecerem interesses políticos, ideológicos, comerciais, religiosos ou de qualquer outra natureza privada. Os meios de comunicação se valem da ambigüidade da legislação sobre utilização de concessões públicas, que não trata adequadamente da questão.

O país tem que discutir o assunto da comunicação profundamente. E o Fórum para tanto já existe, está em preparação, mas tem sofrido duros golpes.

A Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) está programada para os primeiros dias de dezembro e não há propaganda oficial do evento por quem o convocou, ou seja, pelo governo federal.

As entidades corporativas das grandes concessionárias de rádio e tevê já boicotam a Confecon não só retirando-se das discussões, mas censurando sua divulgação e impedindo os debates sobre o assunto, como se fossem donas das concessões que detêm.

Assim fica difícil. Chega a dar desânimo. Mas, como desanimar não é opção, informo a vocês que darei minha cota de contribuição participando das discussões que ocorrerão no ABC paulista nos dias 27 e 28 deste mês.

Não será fácil. São dois dias úteis de trabalho remunerado que terei que utilizar. Mas é meu dever participar, como é de vocês também. De todos nós.

Abaixo, portanto, reproduzo o convite que recebi para participar dos trabalhos preparatórios para a Confecon que estão ocorrendo timidamente, ainda, no Estado de São Paulo, sobretudo por força dos bloqueios impostos pelos governos do Estado e da capital paulista.

*

Sr. Eduardo Guimarães, boa tarde!

O Grande ABC, por meio das Secretarias de Comunicação das sete prefeituras que compõem a região – Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra - realizará nos dias 27 e 28 de agosto a I Conferência Regional de Comunicação - O Grande ABC e os meios para a construção de Direitos e de Cidadania na Era Digital.

O encontro regional atende ao Decreto Presidencial de 16 de abril de 2009 que convoca a 1ª Conferência Nacional de Comunicação – CONFECOM.

O Grande ABC pretende definir propostas e eleger delegados a serem encaminhados à CONFECOM, que acontece de 1 a 3 de dezembro em Brasília.

A Conferência Regional de Comunicação, que tem o apoio do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, terá o seguinte formato:

  • Dia 27 Mesa de Abertura (das 9h às 12h)

Mesa I – Tema: ‘A Democracia e os Meios de Comunicação’

(das 13h30 às 15h30)

Mesa II – Tema ‘Cidadania e Comunicação’

(das 16h às 17h30)

  • Dia 28 Conclusão dos Trabalhos

(das 8h às 13h)

Local: Espaço Office do Mauá Plaza Shopping, em Mauá

(Av. Governador Mario Covas Jr. Nº 1 – Centro – Mauá – SP).

Diante do exposto, gostaríamos de convidar Vossa Senhoria para participar da Mesa I do encontro e destacar que vossa presença traria contribuição relevante para o debate regional.

Agradecemos antecipadamente a atenção e aguardamos o retorno sobre a possibilidade de participação no evento.

Atenciosamente,

Rosemeire Cristina Silva

Consórcio Grande ABC – Comunicação

Fone: 11 (...)

www.consorcioabc.org.br

José Luís Fiori e o servilismo dos tucanos

Do blog do Azenha (viomundo)

O perigo da utopia

Artigo publicado no jornal Valor Econômico, 12.08.2009

"...a geopolítica do equilíbrio de poderes e a prática do imperialismo explícito deixaram de fazer sentido devido a uma série de novos fatos históricos [...] esta abordagem das relações internacionais não tem mais espaço no mundo em que vivemos, do pós-colonialismo, da globalização, do sistema político global, e da democracia [...] com a globalização, todos os mercados estão abertos e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado [...] Resulta ainda daqueles fatos que a guerra entre grandes países também não faz mais sentido [...] No Século XX, as guerras entre as grandes potências não faziam sentido porque todas as fronteiras já estavam definidas." - Luiz Carlos Bresser-Pereira, em "O mundo menos sombrio", Jornal de Resenhas, nº 1, 2009, USP, p. 7

Na segunda metade do Século XX, em particular depois de 1968, tornou-se lugar comum a crítica dos "novos filósofos" europeus, que associavam a utopia socialista ao totalitarismo. Mas não se ouviu o mesmo tipo de reflexão, depois da década de 80, quando a utopia liberal se tornou hegemônica e suas ideias tomaram conta do mundo acadêmico e político. Logo depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama popularizou a utopia do "fim da história" e da vitória da "democracia, do mercado e da paz". E apesar dos acontecimentos que seguiram, suas ideias continuam influenciando intelectuais e governantes, sobretudo na periferia do sistema mundial. Basta ver a confusão causada pelo anúncio recente da decisão americana de ampliar sua presença militar na América do Sul. Com a instalação ou ampliação de sete bases militares no território colombiano, que deverão servir de "ponto de apoio para transporte de cargas e soldados no continente e fora dele" (FSP, 05/08/09).

O governo americano justificou sua decisão com objetivos "de caráter humanitário e de combate ao narcotráfico". A mesma explicação que foi dada pelo governo americano, por ocasião da reativação da sua IV Frota Naval, na zona da América do Sul, no ano de 2008 : "Uma decisão administrativa, tomada com objetivos pacíficos, humanitários e ecológicos" (FSP, 09/07/08). Uma das funções dos diplomatas é participar deste jogo retórico que às vezes soa até um pouco divertido. E cabe aos jornalistas o acompanhamento destes debates sobre distâncias, raio de ação dos aviões, ameaça das drogas etc. Todavia, os intelectuais têm a obrigação de transcender este mundo da retórica e dos números imediatos e também o mundo das fantasias utópicas, o que às vezes não acontece, e não se trata - evidentemente - de um problema de ignorância.

Pense-se, por exemplo, na utopia liberal do "fim das guerras", que já não fariam mais sentido entre os grandes países, e contraponha-se este tese com a história passada e a história dos Séculos XX e XXI. Segundo a pesquisa e os dados do historiador e sociólogo americano, Charles Tilly, "de 1480 a 1800, a cada dois ou três anos iniciou-se em algum lugar um novo conflito internacional expressivo; de 1800 a 1944, a cada um ou dois anos; a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos, a cada 14 meses. A era nuclear não diminuiu a tendência dos séculos antigos a guerras mais frequentes e mais mortíferas [aliás], desde 1900, o mundo assistiu a 237 novas guerras, civis e internacionais [enquanto] o sangrento Século XIX contou 205 guerras" (Charles Tilly, Coerção, capital e Estados europeus , Edusp, 1996, p. 123 e 131).

Mesmo na década de 1990, durante os oito anos da administração Clinton, que foi transformado na figura emblemática da vitória da democracia, do mercado e da paz, os EUA mantiveram um ativismo militar muito grande. E, ao contrário da impressão generalizada, "os Estados Unidos se envolveram em 48 intervenções militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria, período em que ocorreram 16 intervenções militares" (Bacevich, 2002: p:143). E mais recentemente, os "fracassos" militares dos EUA, no Iraque e no Afeganistão - ao contrário do que dizem - aumentaram a presença militar dos EUA na Ásia Central e o cerco da Rússia e da China, envolvendo, portanto, preparação para a guerra entre três grandes potências. Em tudo isto, fica clara a dificuldade intelectual dos liberais conviverem de forma inteligente com o fato de que as guerras são uma dimensão essencial e co-constitutiva do sistema mundial em que vivemos, e que portanto não é sensato pensar que desaparecerão. Ao contrário do que pensam os liberais, a associação entre a "geopolítica do equilíbrio de poderes" e as guerras não se restringe ao Século XIX - já havia sido identificada na Grécia - e o sonho do "governo mundial" das grandes potências existe pelo menos desde o Congresso de Viena, em 1815, sem que isto tenha impedido o aumento do número dos Estados e das guerras nacionais.

Neste tipo de sistema mundial, por outro lado, é muito difícil acreditar na possibilidade do "fim do imperialismo", e ainda menos neste início do Século XXI, em que as grandes potências - velhas e novas - se lançam sobre a África e sobre a América Latina disputando palmo a palmo o controle monopólico dos seus mercados e das fontes de energia e matérias-primas estratégicas. E soa quase ingênua a crença liberal nos "mercados abertos", num mundo em que todas as grandes potências impedem o acesso às tecnologias de ponta, não aceitam a venda de suas empresas estratégicas e protegem de forma cada vez mais sofisticada seus produtores industriais e seus mercados agrícolas. Neste ponto, chama atenção a facilidade com que os economistas liberais confundem os mercados de petróleo, armas e moedas, por exemplo, com os mercados de chuchu, queijos e vinhos.

Em tudo isto, o importante é que a utopia liberal também pode ter consequências nefastas, sobretudo para os países que não estão situados nos primeiros escalões da hierarquia de poder do sistema mundial. Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com frequência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos à uma posição de servilismo internacional.

José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações" (Editora Boitempo, 2007).