domingo, 8 de janeiro de 2012

O que move o partido-imprensa



Merval Pereira, Miriam Leitão, Sardenberg, Eliane Catanhede, Dora Kramer e outros mais necessitam ser analisados pelo que são: intelectuais orgânicos do totalitarismo financeiro. O conteúdo de suas colunas representa a tradução ideológica dos interesses do capital financeiro.
A leitura diária dos jornais pode ser um interessante exercício de sociologia política se tomarmos os conteúdos dos editoriais e das principais colunas pelo que de fato são: a tradução ideológica dos interesses do capital financeiro, a partitura das prioridades do mercado. O que lemos é a propagação, através dos principais órgãos de imprensa, das políticas neoliberais recomendadas pelas grandes organizações econômicas internacionais que usam e abusam do crédito, das estatísticas e da autoridade que ainda lhes resta: o Banco Mundial (BIrd), o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC). É a eles, além das simplificações elaboradas pelas agências de classificação de risco, que prestam vassalagem as editorias de política e economia da grande mídia corporativa.

Claramente partidarizado, o jornalismo brasileiro pratica a legitimação adulatória de uma nova ditadura, onde a política não deve ser nada além do palco de um pseudo-debate entre partidos que exageram a dimensão das pequenas diferenças que os distinguem para melhor dissimular a enormidade das proibições e submissões que os une. É neste contexto, que visa à produção do desencanto político-eleitoral, que deve ser visto o exercício da desqualificação dos atores políticos e do Estado. Até 2002, era fina a sintonia entre essa prática editorial e o consórcio encastelado nas estruturas de poder. O discurso "modernizante" pretendia - e ainda pretende - substituir o "arcaísmo" do fazer político pela "eficiência" do economicamente correto. Mas qual o perigo do Estado para o partido-imprensa? Em que ele ameaça suas formulações programáticas e seus interesses econômicos?

O Estado não é uma realidade externa ao homem, alheia à sua vida, apartada do seu destino. E não o pode ser porque ele é uma criação humana, um produto da sociedade em que os homens se congregam. Mesmo quando ele agencia os interesses de uma só classe, como nas sociedades capitalistas, ainda aí o Estado não se aliena dos interesses das demais categorias sociais.

O reconhecimento dos direitos humanos, embora seja um reconhecimento formal pelo Estado burguês, prova que ele não pode ser uma instituição inteiramente ligada aos membros da classe dominante. O grau maior ou menor da sensibilidade social do Estado depende da consciência humana de quem o encarna. É vista nesta perspectiva que se trava a luta pela hegemonia. De um lado os que querem um Estado ampliado no curso de uma democracia progressiva. De outro os que só o concebem na sua dimensão meramente repressiva; braço armado da segurança e da propriedade.

O partido-imprensa abomina os movimentos sociais os sindicatos (que não devem ter senão uma representatividade corporativa), a nação, antevista como ante-câmara do nacionalismo, e o povo sempre embriagado de populismo. Repele tudo que represente um obstáculo à livre-iniciativa, à desregulamentação e às privatizações. Aprendeu que a expansão capitalista só é possível baseada em "ganhos de eficiência", com desemprego em grande escala e com redução dos custos indiretos de segurança social, através de reduções fiscais.

Quando lemos os vitupérios dos seus principais articulistas contra políticas públicas como Bolsa Família, ProUni e Plano de Erradicação da Pobreza, dentre outros, temos que levar em conta que trabalham como quadros orgânicos de uma política fundamentalista que, de 1994 a 2002, implementou radical mecanismo de decadência auto-sustentada, caracterizada por crescentes dívidas, desemprego e anemia da atividade econômica.

Como arautos de uma ordem excludente e ventríloquos da injustiça, em nome de um suposto discurso da competência , endossaram a alienação de quase todo patrimônio público, propagando a mais desmoralizante e sistemática ofensiva contra a cultura cívica do país. Não fizeram- e fazem- apenas o serviço sujo para os que assinam os cheques, reestruturam e demitem. São intelectuais orgânicos do totalitarismo financeiro, têm com ele uma relação simbiótica. E é assim que devem ser compreendidos: como agentes de uma lógica transversa.

Merval Pereira, Miriam Leitão, Sardenberg, Eliane Catanhede, Dora Kramer e outros mais necessitam ser analisados sob essa perspectiva. É ela que molda a ética e o profissionalismo de todos eles. Sem mais nem menos.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

Por que a mídia brasileira não comemorou o Brasil como a 6º economia do planeta?

Extraído do Os Olhos do Sertão

Porque o Brasil tem muitos miseráveis. Parece que de repente a velha e grande mídia brasileira descobriu que o Brasil tem miseráveis.
Especialmente a Rede Globo, descobriu que o Brasil tem grandes problemas, como miséria, problemas na infra-estrutura, problemas na saúde, na educação, etc, por isso o povo não deve comemorar nada.
Por isso, o Brasil não tem o que comemorar. Nada de ufanismo, nada de soltar rojões, a despeito dos jornais pelo mundo terem dado destaques para o "Gigante do sul ter saído do seu berço esplêndido"
Não, não vale comemorar que Brasil tenha tirado milhões de brasileiros da miséria.
Não, não vale comemorar o Brasil ter eleito um retirante do nordeste e depois uma mulher pelo glorioso Partido dos Trabalhadores.
Não, não vale comemorar a geração de milhões de empregos para os trabalhadores brasileiros.
Não, não vale comemorar que o Brasil está crescendo, mas crescendo reduzindo a pobreza nesse país. E nada de esperar crescer o bolo para depois dividi-lo.
Não, não vale comemorar o desenvolvimento do Nordeste, onde hoje essa região é importadora de mão-de-obra.
Não vale comemorar o Brasil ter pago a dívida com o FMI e agora ser credor.
Não, não vale comemorar o Brasil passar o Reino Unido como a sexta economia do planeta.
Não, não vale comemorar o Brasil como grande protagonista nos fóruns internacionais.
Não, não vale comemorar a afirmação da soberania brasileira nesse mundo cada vez mais em crise e em conflitos.
Por fim, senhora Globo, o Brasil não é país um país subserviente aos interesses dos EUA e da EUROPA.
Vocês continuam com o pensamento colonizado, americanófilo. Os seus jornalistas continuam com esse pensamento atrasado e contra a pátria brasileira.
Não senhora Globo, o povo brasileiro está mais feliz, apesar dos graves problemas que temos, não de agora, mas desde às nossas origens ibéricas.
Como já dizia Florestan Fernandes, Buarque de Holanda e tantos pensadores brasileiros: uma elite aqui chegou, apossando-de tudo e negando ao povo brasileiro todas as oportunidades desse país.
Como dizia Rui Barbosa: o Brasil não tem problemas, o Brasil tem sim potencialidades adiadas.
E vemos hoje no governo Lula, do PT e agora Dilma, todas essas potencialidades serem transformadas em oportunidades para todo o povo brasileiro.
E vocês, Rede Globo, não se conformam com isso. E parece que não podem comemorar a melhora de vida do povo brasileiro e nem do Brasil.
No entanto, o povo brasileiro, a despeito de toda uma cobertura negativa, está otimista que suas vidas irão melhorar.

Carlos Lessa: O povo brasileiro, tal qual ele é

Alguém me disse que, "ao invés dos fogos de artifício de fim de ano, deveríamos exigir que esses recursos fossem utilizados para a educação". Afirmei que a renovação mágica da esperança é uma aula magna de civilidade que reitera a identidade nacional brasileira.

Por Carlos Lessa


Como criança, sempre cantei o Hino Nacional, com meus colegas, antes das aula diárias. Havia, em qualquer caderno escolar, a letra de um hino e, quase sempre, o mapa do Brasil. Aprendi que meu país tinha uma história impregnada de problemas e que o presente estava mergulhado em dificuldades, mas que o Brasil teria um futuro. Assimilei que ser brasileiro era ter esperança quanto ao futuro e perceber que eu fazia parte desse povo admirável. Vesti a camiseta verde-e-amarela de minha vida.

Todos os povos fazem festas, porém o Brasil é o povo da festa. Do Oiapoque ao Chuí tudo é pretexto para festa, seja reunindo multidão ou pouca gente. Datas religiosas ou profanas, patrióticas, de frutas, legumes, peixes, animais; tudo pode ser pretexto. É simbólico que diversos municípios disputem a titularidade da Festa do Jumento. O pretexto pode ser de uma festa relíquia do passado ou, então, a adaptação de um plágio importado. A festa também pode surgir de um fato particular ou, simplesmente, pela busca de convívio de um pequeno grupo.

Festejar o Ano Novo tem múltipla origem religiosa. Essa festa vem atravessando inovações tecnológica e sociais. Como carioca, quero sublinhar que, no Rio, se realiza a mais prodigiosa festa de Ano Novo.

A festa do Rio apresenta, sem qualquer arrogância, o povo brasileiro, tal qual ele é. Convivial, amistoso

Em todo o Brasil, tradicionalmente há a tendência a se aproximar da água na passagem do Ano Novo. Sem qualquer pretensão histórica quanto à festa do Rio, pode-se afirmar que é antiga, mas não custa relembrar que o salto tecnológico do festejo em Copacabana com a inclusão do festival de fogos de artifício foi iniciado há menos de 25 anos, por um hotel. A inovação foi rapidamente adotada pela rede turística e a praia foi sendo, sucessivamente, povoada por palcos musicais.

O prefeito de Nova York sublinhou que quase dois milhões de espectadores participaram com a maçã na Times Square; nesta mesma noite, no Rio, debaixo de uma forte chuva, mais de dois milhões de brasileiros reuniram-se na praia de Copacabana. É um prodígio de festa de multidão; a região metropolitana de Nova York é muitas vezes maior que a do Rio. Também houve festa nas praias atlânticas do Leme até Recreio, no Flamengo, Sepetiba, Guaratiba, Paquetá e no Piscinão de Ramos. Quem não chegou a uma praia ficou pela praça, como na Penha. Obviamente, em todas as cidades brasileiras houve festas intensas na passagem do ano.

O povo carioca ocupa, mansa e pacificamente, os quilômetros quadrados de areia. Todas as idades, gêneros, tribos, famílias "ampliadas", grupos de amigos e religiosos convivem com violência zero. Tudo isso mostra que é uma grosseira mentira dizer que o Rio é violento.

Esse ano, todas as comunidades debruçadas sobre o mar acolheram espectadores nas suas lajes (antes, as plateias se acumulavam nos apartamentos do colar art-deco que envolve Copacabana). É lindo ver a ampliação da plateia festeira para as lajes das habitações populares.

A festa do Rio apresenta, sem qualquer arrogância, o povo brasileiro, tal qual ele é. É a moldura de suas dimensões: sem preconceitos em qualquer dimensão, convivial, tranquilo com as diferenças, sem inibições, amistoso, cordial e acolhedor, e com repudio a qualquer violência. Quem participa da festa brasileira toma um banho de civilização.

Não necessitamos de arrogância, nem de auto-exaltação. Está fora de moda exaltar as características de nosso povo, que tem, dentro de si, uma linda promessa de civilização, mas precisamos, sim, perceber as potencialidades de nossa identidade.

A preliminar para um projeto nacional de desenvolvimento civilizado exige a integração de todos os brasileiros no estilo do Ano Novo. É necessário reconhecer que, no espírito festeiro está nosso futuro. É conveniente que, sem orgulho e mansamente, explicitemos as qualidades de nosso povo como o ingrediente-chave de nosso futuro.
A festa não é um ópio, que retira energia e produtividade de nossa gente; ao contrário, ela é reposição, reiteração e amplificação de nossa identidade. Foi, historicamente, o ritual de confirmação da pertinência do brasileiro às vizinhanças de seu lugar de moradia, no popular que diz "lá, todo mundo me conhece e eu conheço todo mundo". É com esta frase que o popular brasileiro apresenta sua identidade.

É um sonho, porém não é uma utopia, imaginar que o brasileiro, amante de seu lugar de moradia, faça do Brasil o espaço de sua identidade nacional. Quem organiza enormes festas, quem se arregimenta nas esfuziantes torcidas de futebol, quem (nas palavras de Nelson Rodrigues) se converte na "Pátria de chuteiras", tende a evoluir para o projeto civilizatório do futuro desenvolvimento nacional.

A festa é uma aula sobre a nação, e a juventude, dela participando, poderá ser a alavanca do amanhã.

* Carlos Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES

Fonte: Valor Econômico