quarta-feira, 21 de outubro de 2009

‘Moralistas’ do Jornal da Gazeta defendem vereadores cassados'


Do blog Cidadania.com

Quem tem algum resquício de massa cinzenta pulsando dentro do crânio – e um mínimo de senso de Justiça – certamente sentiu engulhos ao assistir o Jornal da Gazeta de segunda-feira.

Mesmo aquele telejornal sendo famoso pelo partidarismo, conseguiu me surpreender durante os comentários que a âncora Maria Lydia Flandoli e o comentarista político Mauro Chaves (Estadão) fizeram da cassação dos mandatos de 13 vereadores da base de apoio de Gilberto Kassab na Câmara Municipal de São Paulo.

Os vereadores paulistanos foram cassados porque receberam doação ilegal da Associação Imobiliária Brasileira (AIB).

O que me escandalizou foi Maria Lýdia e Chaves, pasmem!, defenderem os cassados, minimizando o crime eleitoral deles. Justo esses dois, que tanto moralismo têm vertido na questão de Sarney por acusações como a de ele ter conseguido um emprego para o namorado da neta no Senado.

Ficaram lá, aqueles dois caras-de-pau, desmanchando-se de dó dos vereadores, dizendo que a pena teria sido “desproporcional” e insinuando que a Justiça Eleitoral deveria, isso sim, ter ido para cima de Lula e de Dilma Rousseff por “usarem a máquina do Estado para se promoverem eleitoralmente”.

Fui entender por que tanta preocupação com a vereança malandra do PSDB e do PFL ao acessar o R7, único grande portal de internet que não escondeu que Kassab também corre o risco de perder o mandato por também ter recebido dinheiro da AIB, ainda mais em um momento no qual até governadores de Estado estão sofrendo essa pena.

A preocupação com o mandato de Kassab é tanta que os dois pseudo jornalistas de José Serra nem ousaram tirar uma casquinha de Marta Suplicy, o boneco de Judas da mídia, pois ela também recebeu dinheiro daquela associação e pode ficar inelegível.

Para os dois fantoches do tucanismo pefelento abrirem mão de atacar Marta também contribuiu o fato de Geraldo Alckmin, a grande aposta da direita paulista para manter o governo do Estado de São Paulo nas mãos do PSDB e do PFL, também ter recebido doação ilegal da AIB.

Tomara que a Justiça Eleitoral faça como fez com os governadores recentemente cassados e retome o mandato de Kassab e torne Alckmin e Marta inelegíveis. Mesmo que as doações da AIB tivessem ficado dentro da lei, já seria um escândalo esses políticos receberem dinheiro de uma entidade que tantos interesses deve ter a defender numa cidade como São Paulo.

A penalização desses políticos graúdos é vital para que todos os outros comecem a levar a sério as leis que regulam as doações eleitorais. E que reflitam que não podem receber dinheiro de quem tanto podem ajudar quando se elegem.

Como o PSDB se tornou sucursal da mídia

Segundo matéria da Folha, a Casa Civil informa que na hora da tal reunião com Lina Vieira ela, Dilma, estava com o presidente da República e não participou de reunião alguma. Lina diz, em depoimento no Senado, que não houve reunião em 9 de outubro porque estava em São Paulo. Ambas – casa Civil e Lina (no Senado) informam que houve reunião na Casa Civil para tratar do tal encontro dos CEOs.
E, depois de pesar todos os elementos, o ponderado senador Arthur Virgílio encerra o samba do crioulo doido com uma frase lapidar:
“Devido ao surgimento de novas e irrefutáveis provas é imprescindível a presença da ex-secretária”, disse o líder do partido, Arthur Virgílio (AM).
Desde que a agenda política passou a ser comandada pelas manchetes do circuito Folha-Veja-Globo, a oposição só afunda. Criou-se um mundo virtual totalmente dissociado da realidade, auto-referenciado, sem auto-crítica, com esse nível de “provas novas e irrefutáveis”.
Esse fenômeno ainda há de ser estudado e, no futuro, considerado o maior engano já produzido por uma liderança política no país: José Serra, o homem que terceirizou a estratégia política para os jornais.
O que esteve por trás dessa imprudência é o seguinte.
No mano-a-mano, a oposição perde a batalha da comunicação para Lula. Decide, então, curvar-se a essa realidade, deixar de lado o “feeling” político próprio – por não confiar nele – e terceirizar a estratégia comunicação para quem presumivelmente entende e comanda o processo: a mídia. Assim, a parte mais sensível de uma campanha política, a formação da imagem foi substituída pelo exercício fácil de atender às demandas da mídia e deixar o trabalho por sua conta e risco.
Antes, os estrategistas políticos eram pessoas como Tancredo Neves, Tales Ramalho, Ulisses. Na era Serra foram substituídos pelo Ali Kamel (!), Merval (!), o Otavinho (!), o Roberto Civita (!), as colunistas políticas – que diariamente mandam orientações à oposição sobre como proceder, dão broncas quando acham que a oposição está desanimando, passam pito, ordenam isso e aquilo. E as lideranças aceitam de cabeça baixa, entram em todas as geladas que esse processo desembestado gera, criam até CPI da Petrobras e, depois que a empresa lança uma monumental campanha midiática, ficam órfãos, sem saber porque a mídia se desinteressou pelo tema, depois de obrigá-los a entrar na fria.
À falta de conteúdo político, de capacidade de compreensão do processo político, da incapacidade de discutir propostas ou modelos de país (porque exige ir além dos slogans e porque não faz parte da lógica midiática), esse pessoal adotou a agenda neocon – um modismo norte-americano que, no caso brasileiro, vinha pronto e embalado (criado pelo brilhantismo de Olavo de Carvalho e repetido por meia dúzia de papagaios). Um discurso restrito, de pouca ressonância, tornou-se hegemônico na mídia, não por convicção, mas por visão torta de mercado.
Não era mais a política comandando o discurso – como ocorreu com o PMDB de Ulisses, com o próprio Collor, com o mercadismo de FHC. Eram as criaturas de FHC, misturando slogans de mercado com slogans neocons e condicionando o discurso de um candidato a presidente da República, tendo como “timing” político e midiático apenas o escândalo do dia seguinte. Serra criou um exército de lobisomens (neoliberais + neocons + criadores de factóides) e passou a ser comandado por eles.
Como a mídia, seguramente, não estava à altura do desafio – e nem poderia estar, porque a lógica dos jornais é outra – criou-se essa mixórdia visceral, um debate circular em torno de Honduras, FARCs, cotas raciais, Venezuela, erros de português do Lula, Honduras, Bolsa Familia, Foro de São Paulo, FARCs, Moralez, erros de português do Lla, Hinduras, Cuba, Fidel… Meu Deus! Essa temátiuca só existe na cabeça deles e de leitores influenciáveis (e sem nenhuma relevância). Não há um ambiente minimamente esclarecido – sejam entre empresários, intelectuais – que tenha saco para entrar nesse jogo.
A oposição torna-se, então, massa de manobra da mídia. E, como se tornou partido político, a grande imprensa passou a fazer a única coisa que acha que sabe: fabricar escândalos, o tal priapismo midiático que os levou a um besteirol, em cima de factóides, poucas vezes visto na história da imprensa brasileira.
Serra conseguiu transformar um partido que já representou esperanças de mudança no país em sucursal da mídia. Não de um New York Times, mas da mídia brasileira.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Jornalismo porco: Folha vai além do desapego à verdade factual


A partidarização da mídia brasileira vai além do desapego à verdade factual. Temos jornalistas que, em nome de contemplar "os dois lados", simplesmente se deixam usar para fazer propaganda política.

Por Luiz Carlos Azenha, no blog Vi o Mundo


O caso envolvendo Lina Vieira é apenas a demonstração mais recente disso. A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, usou uma entrevista à Folha de S.Paulo para propagar a versão de um encontro com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. O ônus da prova cabia a ela, Lina. Ao depor no Congresso, Lina Vieira não forneceu provas factuais ou testemunhais sobre o que disse na entrevista.

Ou seja, a mídia transformou um factóide em um fato. Fez isso em nome dos partidos de oposição, numa clara estratégia para avançar os interesses partidários.

O factóide ganhou novo fôlego com o surgimento repentino da agenda de Lina Vieira. O encontro, segundo anotação na agenda, teria sido no dia 9 de outubro de 2008 (essa é, pelo menos, a versão da revista Veja). Não é a data anunciada anteriormente por Lina Vieira a senadores da oposição.

Quem é que fez a acusação sem apresentar provas, que se "esqueceu" da agenda e que aparentemente mudou de versão? Lina Vieira. A mídia, no entanto, continua assumindo como verdadeiras as declarações dela. Continua fazendo claramente o jogo dos partidos de oposição.

O fato é que não há novidade no encontro entre Dilma e Lina no dia 9 de outubro. O encontro, um de muitos entre as duas, havia sido admitido anteriormente no depoimento oficial de Lina ao Congresso.

Está lá, no questionamento feito a Lina pelo senador Aloizio Mercadante.

Lina diz claramente que naquele encontro tratou com Dilma de um fórum de empresários realizado em São Paulo.

Mas a mídia faz de conta que não viu.

Olhem só esse texto da Folha Online:


19/10/2009 - 15h00
Após aparecimento de agenda, oposição vai convidar Lina para falar de encontro com Dilma

GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília

Atualizado às 15h13.

A oposição vai protocolar esta semana na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado requerimento com o convite para que a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira preste depoimento à comissão.

Os oposicionistas querem que a ex-secretária confirme se achou a agenda em que teria anotado o dia em que diz ter se encontrado com a ministra Dilma Rousseff —no qual a ministra teria pedido para a Receita agilizar investigações sobre familiares do senador José Sarney (PMDB-AP).

"Estamos tentado fazer com que a maioria aceite que ela venha como convidada, a fim de que possam confrontá-la e estabelecer o contraditório com o que ela possa dizer agora de posse da sua agenda", disse o senador Álvaro Dias (PSDB-PR).

Na opinião do tucano, a ministra mentiu ao negar ter se encontrado com a ex-secretária para pedir o fim das investigações sobre familiares de Sarney.

"Está ficando como uma marca registrada do governo a mentira como arma para blindagem da sua popularidade. Não é a primeira vez que isso ocorre envolvendo a ministra Dilma. Mentira é arma utilizada pelo governo para encobertar determinadas irregularidades", afirmou Dias.

Segundo a oposição, a agenda com anotação do encontro que diz ter tido com a ministra reabre o caso sobre a suposta ação do governo para "agilizar" as investigações sobre a família Sarney.

Na agenda que Lina diz ter encontrado, há menção a uma audiência com Dilma na página de 9 de outubro de 2008. Nessa data, há de fato registro no Planalto da entrada de Lina.

Em 19 de agosto, dez dias depois de ter feito a acusação em entrevista à Folha, Lina depôs no Senado. Ela confirmou sua versão e deu mais detalhes. Tanto a ministra como Lula negaram as acusações e desafiaram a ex-secretária a apresentar provas da data exata do encontro.


*****

"Nessa data, há de fato registro no Planalto da entrada de Lina", diz a Folha. O que a Folha não diz é que não se trata de novidade. Quando Lina depôs ao Congresso o senador Mercadante mencionou vários encontros de Dilma e Lina, com as devidas datas.

Diz a Folha: "Segundo a ex-secretária, o encontro foi chamado por Dilma e teve um só tema: um pedido para ‘agilizar’ a investigação do fisco nos negócios da família de Sarney, aliado do governo Lula e hoje presidente do Senado."

Mas a Folha não diz que no encontro de 9 de outubro, conforme descrito pela própria Lina no depoimento ao Senado, ela afirma que tratou com a ministra de um único assunto: um fórum de empresários.

Será que a Folha não assistiu ao depoimento de Lina? Não teve acesso à transcrição?

É inacreditável que o jornal continue bancando um factóide reciclado, sem qualquer compromisso com a verdade factual, sem questionar as múltiplas versões apresentadas por Lina e, acima de tudo, desprezando a inteligência de seus próprios leitores. A Folha se tornou um jornal vergonhoso.

Transcrevo o trecho do depoimento:


Aloizio Mercadante: Quantas audiências a sra. teve com a ministra Dilma Rousseff?

Lina Vieira: Acredito que, em reuniões, particular apenas esta. Em outras reuniões eu acredito no máximo três.

Mercadante: Quanto?

Lina: No máximo três.

Mercadante: No máximo três... Bom, o que eu tenho aqui é no dia 14 de agosto a sra. teve uma audiência, no dia 9 de outubro a sra. teve uma audiência, tratando do Forum dos CEOs que se realizaria no dia 10 de outubro. No dia 22 de janeiro a sra. teve uma audiência com a presença da ministra Dilma. No dia 16 de fevereiro a sra. teve uma audiência com a ministra Dilma, no dia 6 de maio a sra. teve uma audiência com a ministra Dilma, no dia 19 de maio a sra. teve audiência com a ministra Dilma, para citar algumas, é muito mais do que duas ou três. Parece que a memória da sra. não é tão rigorosa quanto as informações que eu tenho.

Lina: Não, não. Pode até constar da agenda, mas eu tive um encontro em São Paulo no dia 9 de outubro, no dia 10, eu viajei no dia 9, para essa reunião de CEOs, foi em São Paulo essa reunião. Depois eu tive um encontro para tratar da... da... do... Minha Casa, Minha Vida.

Mercadante: 22 de janeiro.

Lina: Minha Casa Minha vida, eu não lembro a data, não estou com a minha agenda oficial aqui. E uma outra de construção dessa, nós tivemos duas reuniões aí para construção de que assuntos seriam abordados.

Mercadante: Só essas três?

Lina: Que eu me lembre, assim, no máximo três reuniões.